quarta-feira, 19 de novembro de 2008

A cirurgia

Então, um final de semana inteiro naquela tensão de fazer uma cirurgia, de certa forma, de urgência era para ficar mesmo muito tenso. Pensava nas piores coisas que poderiam ocorrer. Silenciosamente, tratei de organizar meus documentos, seguro de vida, seguro do automóvel, documentos bancários, enfim, deixar todos numa só pasta no arquivo para facilitar as coisas. Foi assim mesmo, afinal, as palavras do médico foram bem taxativas.

Acontece, que ao meu lado está uma grande mulher, que tem me dado muita força espiritual, muito apoio moral mesmo. É nessas horas que o companheirismo vale muito mais que qualquer outra coisa. Você sente firmeza no seu andar, percebe que não está sozinho nessa luta.

Na semana seguinte, segunda-feira, logo cedo, ao chegar ao trabalho compartilhei o meu problema e confirmei o pensamento de ouvir uma segunda opinião médica, até para esclarecer melhor a situação e nos deixar mais tranquilos quanto aos procedimentos que deveríamos adotar. Recebi total apoio e solidariedade dos meus chefes e dos colegas de trabalho. Pareciam que já sabiam da gravidade e o que vinha pela frente. Larguei tudo e fui tratar da minha saúde. Agradeço a cada um pela compreensão e pelo apoio moral que tenho recebido desde então.

Naquela mesma manhã consegui uma consulta com o outro médico, na verdade com o que vinha me acompanhando há alguns meses, mais receptivo, naquele dia, o mesmo ratificou a fala do médico anterior - o que fez a endoscopia. Orientou-nos a procurar um cirurgião geral, levando aquele exame, para que ele então conduzisse a situação dali para frente. O médico sugerido também me recebeu para consulta naquele mesmo dia - estávamos muito apreensivos e sabíamos que o caso requeria pressa.

Um grande cirurgião foi posto por Deus a nossa frente. Ele viu cuidadosamente a endoscopia, fez a parte clínica completa. Somente após tudo examinado, passou a solicitar outros exames de praxe para a cirurgia, de sangue e risco cirúrgico (cardiologista), consulta com o anestesista, tomografia computadorizada, raios X do tórax. Deixou agendada a cirurgia para a sexta-feira daquela mesma semana, pois segundo ele, daria tempo para fazer e receber todos os exames e consultas necessárias.

Foi uma semana de muita correria, Jacqueline - minha mulher, passou a acompanhar-me nesses dias todos, após garantir licença no seu trabalho (professora de rede privada de ensino) em dois colégios. Uma barra para mim saber que o emprego dela poderia ficar em risco, considerando tratar-se de empresa privada. Mas, felizmente o diretor de cada escola entendeu a situação e concedeu-lhe quinze dias de licença. Uma benção que agradecemos de coração a cada um deles e a Deus, principalmente, por ter tocado o coração deles.

Voltando um pouco. Na sexta-feira, na hora aprazada, com todos os exames realizados, demos entrada no Hospital combinado. Já estavam lá duas pessoas amigas do meu trabalho, a Márcia Rique juntamente com a Fernanda. Fui acompanhado, naturalmente, por Jacqueline, logo em seguida chegaram minhas filhas Priscila e Pollyana. Era pouco mais das sete e meia da manhã. Aguardamos então os procedimentos para a internação hospitalar enquanto mais pessoas amigas iam chegando para saber de mim, para dar apoio. Nesse momento senti o quanto eu estava sendo amado e uma forte emoção tomou conta da recepção do hospital - foi divino! Ganhei de presente, da Fernanda, uma pequena (grande) imagem de Nossa Senhora das Graças, após ela perguntar-me se eu queria recebê-la. Claro que eu gostei da lembrança e do seu ato delicado de levar-me proteção de uma Santa.

Com o apartamento liberado, nos dirigimos todos para os preparativos preliminares do ato cirúrgico. Lembro que oramos, pedindo proteção divina. Chegada a hora de apartar-me de todos, vesti ou melhor cobri minhas partes com uma roupa feita de "tecido não tecido" - TNT, aberta, apenas uma toalha escondia as minhas partes íntimas. Chorei quando me conduziram na maca para o centro cirúrgico - ali fiquei por longa hora à espera do cirurgião e da sua equipe. Lembro que falavam de pedido de almoços para a equipe - isso me norteava no tempo, apesar de está já pré-anestesiado para minimizar a minha ansiedade. Depois de um tempo, apaguei geral e só tenho lembranças do momento que despertei de verdade num leito da UTI - procedimento de praxe depois de uma operação de tal porte. Isso já foi no dia seguinte. Se acordei ainda no dia da cirurgia não tenho nenhuma lembrança. As lembranças são da manhã do sábado, bem cedinho da manhã, que passo a contar abaixo.

Como disse já estava num leito da UTI quando depertei após a operação de retirada do meu estômago. Duas auxiliares de enfermagem chamaram pelo meu nome e disse que me dariam um banho. Ai de mim, o mundo parecia que tinha caído sobre mim. Olhe a cena. Eu, nu, numa cama de hospital, ar condicionado ligado, duas mulheres estranhas me dando um banho, me virando de um lado para o outro da cama... acho que eu parecia mais com um mamulengo naquela hora. Senti o quanto não somos nada em determinados momentos da nossa vida. Mas, mesmo nesses momentos devemos dar graças por estarmos tendo a oportunidade de vivenciá-los. Saber que a vida estava continuando me conformava e aceitava, sem reclamar daquele banho invasivo.

E o pior foi quando percebi que na minha uretra havia enfiado alguma coisa... era uma sonda para coletar a urina. No meu nariz tinha mais duas coisas enfiadas, uma era do aparelho de monitoramento da UTI, e outro era um catéter que descia de goela abaixo - fiquei sabendo que esse catéter serviria para alimentar-me nos primeiros dias do pós-operatório. Seria um canal de comunicação de muita importância com o que sobrou do meu estômago. Também conectado à minha barriga pelo lado direito, havia um dreno coletando os resíduos líquidos da área cirurgiada. Carreguei esse dreno durante todo o período da internação, levando para casa após a alta hospitalar até que foi retirado pelo cirurgião no seu consultório, para alívio geral daquele desconforto.

Na UTI tinha apenas uma pessoa que estava no leito ao meu lado direito. Não sei se era um homem ou uma mulher. O sábado passou demorado. Pela manhã recebemos o material de higiene enviado por Jacqueline e a tarde recebi a visita dela e das meninas, além da visita de Chintia e de Socorro, esta eu não conseguia visualizar perfeitamente. Do lado de fora ficaram Socorrinha e a Nilda, que não puderam entrar pelo excesso de pessoas.

No domingo logo cedo, após o banho matinal, fui surpreendido pela visita da minha querida Jacqueline. Ela tinha nos olhos um brilho incrível, que refletia o amor que sentimos pelo outro.
Parecia uma menina trelosa, feliz por ter conseguido entrar na UTI em horário fora de visita. Foram poucos minutos, mas o suficiente para renovar a minha fé, a minha alegria de viver e a vontade de sair logo dali. Inesquecível mesmo aquele momento, que mais parecia uma miragem.
Mas, era de verdade!

Naquela mesma manhã do domingo recebi alta da UTI e fui removido para um apartamento, não era o mesmo no qual havia dado entrado, este era bem menor, apertadinho mesmo. As meninas se empenharam e logo conseguiram mudar para um apartamento maior e mais arejado. Parecia que estavam advinhando pois apartir da dia seguinte inúmeras foram as visitas que recebi - chegaram a trinta pessoas num único dia. Tinha momentos de ter cinco, seis pessoas me visitando. Uma graça de Deus tantos amigos preocupados e orando por mim.

Vale registrar a visita do meu primo Herton, ainda no domingo, acompanhado da sua namorada Natália e do seu filho Pedro, vieram da cidade do Recife-PE. Todo cuidadoso falava comigo imaginando que eu não estivesse ouvindo... eu não podia falar direito devido ao catéter que continuava enfiado goela abaixo, mas estava ouvindo tudo perfeitamente. Aproveitei isso para tirar sarro da cara dele, para quebrar o gelo do hospital. Todos riram muito com aquela situação.

Na hora do primeiro teste de refeição, via catéter, a equipe de enfermagem não conseguiu retirar o guia do interior do catéter por onde desceria o líquido para me alimentar. Isso representou um contra-tempo que foi contornado pelo médico, sem muitos danos para mim, apesar do incômodo daquela situação - manter um catéter que não teve serventia alguma. O momento da retirada foi traumático e surpreendente, a coisa tinha mais de meio metro... quando eu imaginava que tinha apenas alguns centímetros.

Esqueci de relatar que ainda tinha na minha barriga, do lado direito, um dreno para coletar os resíduos líquidos da área cirurgiada. Uma mangueira de silicone saia de barriga a fora, ligado a uma bolsa, que por sucção fazia a aspiração desse líquido avermelhado. Não me incomodava muito, acostumei logo com aquela situação que perdurou durante toda a internação - uma semana e mais alguns dias, quando, finalmente, teve a sua retirada pelo médico em seu consultório, na primeira consulta após a minha alta. Ainda não havia recebido o resultado da biópsia do material que foi retirado no ato cirúrgico. Estávamos todos na expectativa daquele resultado da biópsia.

Continua...

2 comentários:

Anônimo disse...

" Jesus Cristo não é abrigo contra o temporal, ele é o refúgio perfeito no temporal "
Ele tá ao seu lado. Força Cunhado
Cícera Tito

Edson disse...

Obrigado Cicera e Tito, boa semana para vcs!