domingo, 13 de fevereiro de 2011

Grand finale

Temos falado sempre em saúde, recuperação, cura e outras coisitas mais, como se a vida fosse tudo. Hoje me dou conta de que não é bem assim, se fosse não haveria o grand finale ou a morte propriamente dita. A vida é contada em dias, meses, anos e décadas, para alguns pode até ser um século, e qual é o tempo contada na "morte", quando tudo parece que vai acabar?!
Ao deitar-me na noite de ontem fiquei pensando nisso tudo, algo me impelia a escrever sobre este tema tão temido pela maioria dos seres viventes e pensantes. Ninguém quer se preparar para este momento fadítico e certo na jornada de todos, ninguém vive neste tempo eternamente. Então a preparação para a chegada ao ponto final do nosso trajeto deveria merecer uma atenção maior. Planejar e organizar este momento não é uma tarefa que rende dividendos, ainda, neste mundo de meu Deus. Ninguém quer ser cliente paciente da morte, e dela querem distância.
Estou incluido nesse rol de pessoas que acredita na vida e quer viver mais tempo possível. Mas, agora, não posso afastar de mim a necessidade de encarar de frente e sem tabus este assunto tão desgostoso. Ao fazer isso não estou abrindo mão de nada, não estou me entregando e nem me considero um derrotado. Tanto é assim que continuo no tratamento quimioterápico, apesar de cada vez mais debilitado pelas reações e outros incômodos adicionais. 
A retirada da minha tireóide não foi muito oportuna, ocorreu no intervalo de trégua que o fígado me deu. Como não disponho de bola de cristal, embarquei na cirurgia e agora estou pagando caro pela falta que esta glândula tem me feito. Perdi a conta das vezes que cortei pedaço do meu cinto para que este segure melhor a calça -tamanho 38, quando vestia 42 antes da primeira cirurgia! Sempre associamos a quimio o estado de magreza atual, só agora me dou conta de que a quimio corrobora com o processo, o agente principal é a ausência da tireóide, a reposição hormonal não estar dando conta do recado. Tudo bem, só me resta esperar pela alta do tratamento atual e enfrentar o desafio de dosar o organismo para que este volte a funcionar de forma plena.
Mas, se isto não ocorrer? É uma pergunta que não quer calar e está feita, pronto! A resposta nós sabemos e eu ainda mais, afinal sou o principal interessado e não passo procuração para ninguém. Pensando nessa hipótese alternativa (protelatória) algumas providências e vontades vão sendo desenhadas para não deixar ninguém desnorteado, como comumente ocorre, mesmo em se tratando de pessoas consideradas "terminais".
As pessoas mais próximas me olham como se eu tivesse me transformado em algo de cristal, sei que sofrem por mim outras mesmo sem esse cuidado todo especial também não conseguem esconder que sofrem comigo. Isso de certa forma me incomoda muito, nunca pensei que desempenharia este papel na minha vida.
Uma coisa eu digo, vai chegar a minha hora, não sei quando, só sei que vai. Estou preparado?! Não sei responder a esta pergunta. O grand finale nos leva a um sono profundo, a ele estou preparado. Creio que me falta preparo para os momentos que antecedem a este desfecho. Tenho medo, por exemplo, de retornar a uma UTI, de ter que passar por outra cirurgia.
Desculpe-me pelo tema de hoje, precisava colocar pra fora estes pensamentos que não consigo expulsar de dentro de mim, por mais que eu tente, não consigo! Peço a Deus que continue iluminando os nossos passos, nos amparando nos momentos mais dificeis e que pensamos estar sozinhos. Amém!

5 comentários:

Karina - Frei-Sein disse...

Meu amigo Edson... Realmente existem momentos que é muito bom falar sobre a morte... Escrever ajuda a elaborar nossos sentimentos... A morte... Essa é a angústia que o ser nasce com ele... A angústia constante da morte eminente... A única certeza que temos nessa vida é a certeza da finitude... Mas qdo ela chegará?? Não sabemos... Costumo pensar sempre que a morte está para todos na mesma distância, mas não pensamos ou falamos sobre ela!! Mas qdo adoecemos nos sentimos mais próximos ou mais sensíveis á se pensar sobre isso... Vc sabe que antes das minhas cirurgias (e até hj) eu sempre deixo todas as minhas coisas organizadas, documentos arquivados, todas as senhas de banco assim como números de conta, todos meus logins e senhas da internet anotados em uma caderneta na escrivaninha de meu quarto, junto com meu cartão do plano funerário e de meu seguro de vida... Pensando em facilitar as coisas para meus familiares caso eu venha faltar-lhes em algum momento!! Não tenho medo dessa viagem, sempre pensei mais na dor de quem fica do quem vai...
Quanto a sua tireoíde entendo bem o que sentes, eu faço reposição com 5 hormônios diferentes pois a minha hipófise parou de funcionar afetando todas as demais glândulas inclusive a tíreoide... E sei o qto é dificil ajustar a reposição de hormônios diz meu médico que a cirurgia ajusta as horas e que a reposição hormonal é com ajustar os segundos...
Dará tudo certo... Estamos aqui com vc!! Eu estou aqui com vc meu amigo!!
Beijos e Fique com Deus sempre!!

sandramunro disse...

Oi Edson!
Vi teu post no blog da Juliana e resolvi entrar.Gostei do tema de hoje.Faz parte dos 4 mais relevan-
tes temas da nossa existencia: morte(nossa e a de quem amamos),a solidáo inividual(morrer e nascer sáo atos solitarios),a liberdade de viver como queremos e o sentido
(ou a falta ) da vida.A total consciencia da morte desenvolve sabedoria e enriquece a vida pq embora o fato nos destrua a idéia da morte pode nos salvar:o que quero p/ o tempo que tenho com os seres que amo, nesta vida?O melhor
presente que um genitor pode dar é morrer serenamente , o modo como a enfrentamos tem a ver com nossos propios pais e sua morte.
Nós ocidentais a negamos, pouco falamos, nossos propios familiares náo suportam nos ouvir falar sobre
nossa morte.
Bem Edson paz e forç para voce,
és corajoso ao falar num assunto
táo dificil p/ nós ocidentais.
Parabéns pelo blog e pela utilidade.
Sandra

Edson Leite disse...

Olá Karina,
Também mantenho todos os documentos pessoais, inclusive dados bancários, seguro de vida e tudo isso que as pessoas irão precisar saber no momento oportuno, juntos numa pasta. Obrigado pelos seus comentários.
E aí Sandra, muito bom saber que vc gostou do nosso blog e como disse da minha coragem de tratar de tal assunto, assim, desnudo de qualquer tabu. Aprendi desde muito cedo a encarar as adversidades da forma direta, sem temores.
A vida ensina a todos, resta-nos o aprendizado, não ém mesmo?
Gostei do seu comentário, muito instruído e demonstra que vc é uma pessoa antenada na vida.
Abraços,

Vitor Finkler disse...

Edson,

O assunto é realmente um tabu na nossa sociedade. As pessoas evitam falar, apesar de todos sabermos que um dia ocorrerá conosco.
Mesmo assim, todos pensam sobre a finitude, todos tem seus medos ou suas curiosidades sobre o assunto.
Refletir sobre isso é importante e natural, ainda mais quando nos deparamos com um obstáculo tão grande na vida.
Acredito que o mais importante não é o tempo que temos, mas o que fazemos com ele.
"O que se leva da vida, é a vida que se leva".

Um abraço.
Vitor Geraldo Finkler

Edson Leite disse...

Vitor,
É isso mesmo, o que importa mesmo é o que estamos fazendo com o tempo que ainda temos, indepedentemente de estarmos ou não adoecidos.
Valeu pelo comentário, volte sempre. Abraços,